Dias felizes!

“Dias Felizes! ” - Um Beckett indizível

I- Beckett & Joyce - o som e a fúria

O som de um despertador ou de uma sirene de escola ou de uma volta do banho de sol de uma cadeia ou um simples e excitante sinal de começo de um espetáculo teatral.

A peça “Dias Felizes! “, de Samuel Beckett, começa assim, com um som universal e polissêmico.

Uma mulher dentro de um buraco até a cintura. Um deserto. Uma luz amarela, como um sol implacável.

Winnie, uns 50 anos, com rastros de uma beleza em decadência, um decote nos seios; e Willie, um homem com seus 60 anos: as duas personagens da peça.

Uma imagem estranha, infamiliar, não-toda.

“Ah! Mais um dia feliz”, diz Winnie. Ele olha para o que está escrito no cabo da escova de dentes e com espanto diz: “Verdadeira... pura... como? ”

Começa a peça e começam as dúvidas, as indeterminações, as fragilidades das predicações.

Aos berros, Winnie chama por Willie: ”Willie onde você está? Me responda, me dê um sinal! Se falo é porque você está aí. Mesmo sabendo que uma hora as palavras nos abandonam, como era mesmo aquele famoso texto? Ai de mim que vejo aquilo que vejo... não me lembro mais. ”

As palavras fracassam, seus saberes são incompletos, sua única condição para continuar é que Willie esteja ali, a ouvir sua voz.

Beckett foi assistente de Joyce em Finnegans Wake. Praticamente cego, Joyce ditava seu texto inventando uma forma de escrita ilegível, onde a indeterminação, a explosão de sentidos eram ali postos em escrita. Costurava várias línguas, como o inglês, o francês, o alemão, o latim, enfim... uma babel.

O som regia essa bricolagem, o som implodia o significante e o transformava numa rasura possível de várias traduções, vários sentidos, várias interpretações. O som é indomável.

II - Quine & Sartre - indeterminação, a matriz de um impossível

Quando Lacan nos diz que “A mulher não existe”, é também uma tentativa de desarticular o caráter determinista que o artigo definido impõe ao substantivo. ”A mulher não existe”, pois existem mulheres, uma a uma. ”A mulher não existe”, dessa forma assume assim um valor de alteridade absoluta. Seria possível usar o mesmo argumento para a tradução, ou seja, ”A tradução não existe”, mas existem traduções, uma a uma?

“A tradução” seria, então, também, uma alteridade radical?

O filosofo americano Quine, em seu livro “Palavra e objeto”, faz um vasto percurso lógico para, em última instância, propor que traduzir é impossível. Argumenta que a “inescrutabilidade referencial”, ou seja, uma indeterminação fundamental de todo e qualquer significante, mesmo quando estamos em um caso de tradução homofônica, onde os sons emitidos por outra pessoa são os mesmos que eu emito quando falo, provoca também um impossível de traduzir, um indizível.

Jean Paul Sartre, filósofo francês, escreveu uma biografia de Gustave Flaubert, romancista e autor do clássico Madame Bovary. O título do livro, “O idiota da família”, traz uma ironia que Sartre faz com a leitura familiar sobre as dificuldades de alfabetização da criança Gustave Flaubert. Para ele, era como se as palavras, ou melhor, os sons e murmúrios transmitidos, não tivessem significados e não pudessem ser repetidos pois não eram assimilados. Eram vazios e em nada correspondiam ao que os emissores tinham a certeza de transmitir.

Um impossível de ser traduzido produziu um silêncio nessa criança, que era tida, por isso, como um idiota. Sartre propõe, em sua versão da biografia de Flaubert, que isso acontece pois “viria do fato de seu conteúdo ser, como diria Lacan, ’inarticulável’, mas a razão não é uma dificuldade primária da articulação reforçada por uma opção secreta pelo inarticulado? ”

e complementa: “o som que ressoa de modo brusco dentro dele, se o impressiona, é por esse estranhamento“. Sartre escreve uma nota de rodapé explicando que esse “estranhamento“ é a tradução de Lacan para Unheimlich.

III – Winnie & Willie - buracos, furos, nomes do pai e afins

Na aula de 10 de fevereiro de 1976 do Seminário 23, Lacan diz: “Pode-se dizer, assim, que o nome próprio faz tudo o que pode para se fazer mais do que o S1, o significante do mestre, que se dirige rumo ao S que convoquei como o índice pequeno 2, aquele em torno do qual se acumula o que concerne ao saber: S1-S2”.

No segundo ato da peça “Dias Felizes! ”, Winnie está somente com a cabeça para fora da terra.

Encontrei uma passagem de Finnegans Wake em que o nome próprio Winnie aparece: ”She’s the very besch Winnie blows Nay on good“. A tradução para o português feita por Donaldo Schüler, opta pelo seguinte sentido: “Ela é um vento bem pestilento a soprar para o bem de Ninguém. ”

Winnie, a pequena vencedora, a ganhadorazinha... Willie, o que se abriga, ou, “nós mentimos”, fazendo a homofonia entre “we” e a escrita de “lie”, em inglês, que respectivamente têm som de “nós” e escrita de “mentir”.

Os dois personagens da peça têm seus nomes carregados de sentidos outros, sons que carregam outros possíveis sentidos. Há uma ruptura no cerne da palavra, uma fissura, uma polissemia. No final da peça, Willie chama por Winnie e fala “Win”, e a própria Winnie repete “Win”. Irônico, trágico, um ato de resistência, um deboche, uma dor profunda, uma invenção possível. Todas essas possibilidades existem a partir da palavra que rompe com sua própria escritura, há um descolamento do escrito e da fala: o som é fúria indomável.

Eric Laurent apresentou um seminário em Córdoba, em 2019, intitulado “La carne de la interpretacíon”.

Ele diz: “a interpretação analítica tem que tomar em conta o heterogêneo, centrando – se não somente na palavra e seu significante e significado mas para além das variedades desse suporte tem que ser orientada pela busca de um efeito de verdade concebido como ruptura“.

Beckett faz um teatro do furo, do buraco, da falha, um tea-trou. Faço aqui uma alusão ao neologismo inventado por Lacan para dar conta do ato fundador, do trauma, do encontro da língua com o corpo: o troumatisme. Beckett nos reenvia os ecos sonoros de uma palavra que contém em si diversos estalos, palavras curtidas ao longo dos tempos nas línguas dos homens. As palavras são torcidas, trançadas e, a partir dessa trança, um big bang implode no vazio do espaço.

Winnie grita por seu companheiro num ato de desespero e esperança. Seu grito tem, para além do nome próprio do seu parceiro, uma outra evocação, um outro sentido: ”Willie! Nós mentimos! Willie! Um abrigo! Willie! ”

Como pensar uma clinica orientada pelo impossível de traduzir, pelo indizível?

Samuel Beckett faz uma obra indeterminada, que produz rupturas e nos invade de ressonâncias. Retorno a Beckett, mais uma vez: ”Tentar sempre. Falhar sempre. Sem problemas. Tentar novamente. Falhar novamente. Falhar melhor’’.

Bibliografia:

Dias Felizes! /Samuel Beckett

O estranho / Sigmund Freud

O Seminário, livro 23: o sinthoma ,1975-1976 / Jacques Lacan

Palavra e objeto / Willard Van Orman Quine

O idiota da família /Jean Paul Sartre

Seminário de Córdoba 2019, “La carne de la interpretacíon” / Eric Laurent, Youtube



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